Dia do Julgamento

"Cada dia é o dia do julgamento, e nós, com nossos atos e nossas palavras, com nosso silêncio e nossa voz, vamos escrevendo continuamente o livro da vida. A luz veio ao mundo e cada um de nós deve decidir se quer caminhar na luz do altruísmo construtivo ou nas trevas do egoísmo. Portanto, a mais urgente pergunta a ser feita nesta vida é: 'O que fiz hoje pelos outros?'"

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

O novíssimo manual da carreira

Os ingredientes necessários para fazer sucesso

Max Gehringer

Embora às vezes se confundam, e até pareçam sinônimos, emprego e carreira são duas coisas muito diferentes. Emprego é uma atividade de curto prazo, cujo desfecho é imprevisível. O emprego pode terminar amanhã cedo, por motivos que nada têm a ver com o desempenho do ocupante. A chegada de um novo chefe, uma fusão entre companhias, um programa de redução de despesas, a terceirização de um setor, ou a venda pura e simples da empresa. Qualquer pessoa conhece vários profissionais que perderam o emprego por um desses motivos. Mesmo assim, a maioria continua acreditando que "essas coisas" só vão acontecer com os outros.

Carreira é um processo de longo prazo. E não é apenas, como o nome parece indicar, o encadeamento de vários empregos sucessivos. Carreira é a autogestão da vida profissional. Como qualquer processo de gestão, requer três habilidades básicas - planejar, estabelecer objetivos e tomar decisões corretas na hora certa. Nenhuma dessas habilidades depende da empresa. Todas elas são pessoais e intransferíveis.

Em resumo, o emprego é o presente, uma relação transitória de utilidade mútua. A carreira é o futuro - uma questão de saber se preparar para poder escolher. O que leva a duas constatações não muito simpáticas. (1) Quem se preocupa demais com o emprego esquece da carreira. (2) Alguém que esteja desempregado, ou descontente com o emprego atual, só pode culpar a si mesmo.

É claro que há outro caminho de sucesso, fora da carreira. O mercado de trabalho é um funil, cuja borda de entrada está cada vez mais larga e cujo bico de saída está se estreitando a cada dia. A opção de abrir o próprio negócio, ou de ser um prestador de serviço autônomo, que hoje ainda é uma via pouco explorada, deverá se tornar no futuro próximo o caminho preferencial. Não tanto por vocação, mas por necessidade. Isso não exime os candidatos a empresários de aprender os conceitos de como fazer carreira nas empresas. Por dois motivos. O primeiro é que muitas lições do manual valem para os dois casos. Ao contrário do que muita gente pensa, quem abre um negócio não deixa de ter chefe - passa a ter todos os clientes como chefe. O segundo motivo é que, em algum momento, os empreendedores de verdade vão ter de saber lidar com um monte de gente querendo fazer carreira em sua empresa.

Construir uma carreira bem-sucedida é tão simples como preparar um bolo. Mas quem já preparou um bolo na vida sabe que a falta de um ingrediente não pode ser suprida pelo excesso de outro. Não adianta ter bastante escolaridade e nenhuma experiência, ou vice-versa. É preciso ter a quantidade necessária de cada um dos ingredientes. E é preciso saber dosá-los. A seguir, os 21 ingredientes necessários para uma boa carreira neste século XXI

ESTABELECER A MARCA
Na Propaganda, existe um conceito fundamental - o Top of Mind. Numa tradução aproximada, isso significa "a primeira marca que vem à cabeça do consumidor". E ser a primeira marca que é espontaneamente lembrada tem um valor inestimável. Há marcas tão fortes que valem mais que todos os ativos da empresa. Em uma carreira profissional, a marca vem do berço: é o nome de batismo. É preciso investir nele, para fazer com que fique gravado na mente das pessoas com poder de decisão. Por isso, todas as oportunidades para reforçar o nome devem ser aproveitadas. Por exemplo, fazer parte de grupos de trabalho que envolvam vários setores. Escrever artigos para o jornal interno. Ser o primeiro a levantar a mão quando a empresa pedir um voluntário. Deve-se também criar uma assinatura legível. Um trabalho bem-apresentado, mas identificado por um garrancho, é um trabalho anônimo. E, ao começar uma conversa, nunca se deve perguntar: "Você lembra de mim?". Deve-se começar dizendo o nome e depois repeti-lo quantas vezes forem necessárias, para que o interlocutor nunca mais o esqueça.

CRIAR UMA REDE DE RELACIONAMENTOS
Em Português Corporativo, isso chama networking. Não é um círculo de amigos do peito, é uma lista de pessoas profissionalmente úteis. Essa utilidade é indispensável na hora de conseguir um emprego: atualmente, de cada dez boas vagas, sete são preenchidas por indicação direta. Como se estabelece contato com essa gente tão importante? Tudo começa na escola. Alguém que tenha terminado uma faculdade conheceu, no mínimo, 50 professores e 500 colegas durante os 16 anos de estudo. Professores conhecem gerentes e diretores. Alguns dos colegas vão atingir, rapidamente, posições respeitáveis em empresas. Mas apenas um em cada cem alunos se preocupa em preservar esses contatos - o que é um erro fundamental. Pessoas que ligam para antigos colegas apenas na hora em que ficam desempregadas (e precisam explicar quem são, ou quem foram) estão praticando o anti-networking.

Outra maneira de conhecer gente interessante é participando de cursos profissionais de curta duração. Nesses cursos, o conteúdo é menos importante que o intervalo para o café - o momento de travar contatos. Porém, é preciso ter em mente que networking não é dizer "muito prazer" e já ir entregando o currículo. Networking é como uma árvore, que precisa ser plantada e cuidada, para que um dia possa render frutos. Em alguns casos, é como uma oliveira: só vai dar azeitona depois de 20 anos

TER UM CURRÍCULO DIFERENTE
Currículo, a origem da palavra explica, é uma breve lista de experiências acadêmicas e profissionais. Não é uma autobiografia nem é uma obra de ficção, com longos parágrafos que começam com "Implantei", "Economizei", ou "Liderei". Gerentes de grandes empresas recebem cerca de 50 currículos por dia, pelo correio postal ou eletrônico. Como chamar a atenção dessa gente, já que todos os currículos se parecem? Transformando o currículo no anexo de uma carta pessoal. A carta, de dez linhas, deve explicar por que o candidato quer trabalhar naquela empresa, e em nenhuma outra empresa do mundo. Por exemplo, porque desde criancinha é consumidor do produto que a empresa fabrica. Uma carta bem escrita é a garantia de que o currículo receberá o mínimo de atenção. Já um currículo-padrão, por mais estético que seja, corre o risco de virar papel reciclado.

PREPARAR-SE PARA A ENTREVISTA
Nenhum entrevistador vai criar uma série exclusiva de perguntas para cada candidato. Por isso, há meia dúzia de perguntas recorrentes em entrevistas. O candidato deve ser objetivo nas respostas, sem exagerar nem se estender demais. Alguns exemplos de perguntas e respostas: 1. Fale um pouco sobre você - "um pouco" significa "não mais que dois minutos". 2. O que você espera de nossa empresa? - "Oportunidades". 3. Qual é seu maior defeito? - "Falar quando é preciso ouvir. Mas estou aprendendo a me controlar". Uma dica: diferentemente do que a maioria dos candidatos pensa, "perfeccionismo" não é uma virtude que parece um defeito. É um defeito, mesmo. Todo perfeccionista é um mala-sem-alça. 4. Onde você se vê daqui a cinco anos? - "Nesta empresa. E daqui a dez, também". 5. Por que você se considera o melhor candidato para esta vaga? - "Não me considero, mas tenho certeza de que não irei decepcionar". 6. Alguma coisa que você queira acrescentar? - "Sim. Gostaria que o senhor me desse um par de sugestões para que eu possa começar meu trabalho com o pé direito". Muito importante - e praticamente ninguém faz - é mandar uma carta para o entrevistador, no dia seguinte, agradecendo-lhe pela oportunidade da entrevista. Se quatro candidatos foram igualmente bem num processo de entrevistas, essa carta pode ser o fator de desempate.

ACERTAR NOS CURSOS
Um diploma de curso superior deixou de ser garantia de emprego. Já foi, até a década de 1980, mas não é mais. Em caso de dúvida - e todo jovem normal de 17 anos tem um caminhão de dúvidas -, o mais indicado é estudar Administração. É o curso mais genérico que existe e, portanto, o que abre um leque maior de possibilidades. Mais tarde, quando a carreira começar a engrenar, o jovem poderá fazer cursos específicos, de acordo com a área de atuação que escolheu. "Falar inglês" também já não é um diferencial. É uma obrigação profissional, mesmo que a empresa não use o inglês. O inglês deixou de ser o idioma dos Estados Unidos e dos países britânicos. Tornou-se a língua do mundo dos negócios. Além do inglês, é recomendável aprender um segundo idioma. Para quem não aprendeu a manusear computador desde criancinha, um curso de informática é indispensável. O mais importante é que nenhum profissional, qualquer que seja sua idade, pode se dar ao luxo de passar dois anos sem fazer um curso. Não para impressionar, mas para estar atualizado. E não importa se a empresa vai pagar o curso ou não. Cursos não são feitos "para a empresa". São feitos para a carreira.

ENTENDER O CHEFE
Muitas empresas estão chamando os chefes de "líderes", ou de "gestores de pessoas", porque a palavra "chefe" parece remeter ao tempo dos tupinambás. Independentemente da terminologia, o chefe é o chefe. Em qualquer carreira, o passo seguinte sempre passa pela opinião do chefe. Um subordinado pode achar que seu chefe é um incapaz, incompetente, déspota e desatualizado - e, além disso, não corta os pelinhos do nariz. Essa opinião pessoal sobre o chefe, mesmo se for correta (e, na maioria dos casos, não é), só vai causar transtornos à carreira. Chefes tendem a auxiliar aqueles subordinados que mostram respeito, agilidade e fidelidade. Que os fazem se sentir seguros, não ameaçados. Que elogiam publicamente as boas coisas que o chefe faz. E vão travar o desenvolvimento daqueles que contam piadas sobre o chefe e vivem criticando suas decisões, ou a falta delas. É mais fácil entender tudo isso sendo chefe. Mas só chega a chefe quem soube ser chefiado.

CAUSAR UMA BOA IMPRESSÃO
Quem muda de emprego tende a usar a ex-empresa como referência. Isso é válido, desde que as referências sejam negativas. Tomar a empresa anterior como modelo bem-acabado é ofender a empresa atual. Um funcionário recém-contratado, todo mundo sabe, é cheio de conteúdo. Se não fosse, não teria sido admitido. Mas o primeiro dia em um novo emprego - ou no primeiro emprego - é que vai criar os rótulos. Rótulos grudam rápido, e não desgrudam mais. Um pós-graduado com MBA e experiência em Copenhague poderá chegar ao fim do primeiro dia num novo emprego com uma avaliação do tipo "Ele é um pentelho". Ou "Ele acha que sabe tudo". E nunca mais vai se livrar do estigma. Ser auto-suficiente é bom, ser autoconfiante é ótimo. Mas existe uma palavra que vai encantar os colegas e os superiores: humildade. E ela não está nas frases prontas ("Estou aqui para somar"), mas nas atitudes pessoais. No primeiro contato, todo o passado profissional ou acadêmico vale menos que um sorriso.

CONTROLAR A ANSIEDADE
Empregados são cheios de idéias. Alguns chegam a ter uma grande idéia por hora. De cada dez funcionários, pelo menos seis sabem exatamente como a empresa poderia ser mais bem administrada. Mas, estranhamente, aquele pessoal lá no topo da pirâmide não parece nem um pouco interessado em escutar. Por que isso acontece? Porque nenhum funcionário é contratado para ter idéias geniais que vão mudar a empresa. Todo funcionário é contratado com dois objetivos. (1) Executar bem um trabalho predeterminado. (2) Fazer pequenas sugestões que vão melhorar o próprio trabalho. Só isso? Só. Saber se enquadrar em uma rotina pode não ser estimulante, mas é necessário. Hoje, com uma oferta de bons candidatos muito superior ao número de boas vagas, as empresas têm aproveitado para admitir pessoas que são superqualificadas para as funções que elas vão executar. Na cabeça da empresa, essas pessoas farão o que precisa ser feito. Na cabeça delas, essas pessoas poderão contribuir com muito mais do que a função exige. Mais ou menos como um engenheiro que aceite uma vaga de pedreiro - ele não pode sair alterando o projeto do prédio, porque essa não é sua função, embora ele tenha conhecimento para isso. Saber controlar a ansiedade significa entender a diferença entre "o que eu devo fazer" e "o que eu posso fazer". Concentrar os esforços no que se deve fazer vai gerar a confiança da empresa. E aí, futuramente, surgirão as oportunidades para o que se pode fazer. Nessa ordem.

APRENDER A SER LÍDER
Empresas nunca usaram tanto a palavra "liderança". De repente, parece que cada funcionário precisa ser um líder de carteirinha. Evidentemente, qualquer grupo em que todos decidem agir como líderes terá como conseqüência o caos absoluto. Quando empresas falam em liderança, elas não estão dizendo "Esqueça as regras, tome a iniciativa e comece a dar ordens". Elas estão dizendo: "Quando surgir uma oportunidade para você liderar, esteja pronto para ela". O que não significa que a oportunidade vai surgir daqui a dez minutos. Ela pode até não surgir neste ano. Enquanto ela não surge, é importante ter em mente que ser líder é uma coisa, e estar líder é outra. A primeira é uma característica pessoal permanente, a segunda é uma delegação provisória da empresa. E a empresa estará de olho naqueles que conseguirão se destacar em situações rotineiras de trabalho. São os que dão bons exemplos de companheirismo. São aqueles que os colegas procuram quando precisam de uma ajuda ou de um conselho. São os primeiros a reagir quando aparece uma emergência. Liderança é a capacidade que algumas pessoas têm de aglutinar um grupo em torno de um objetivo prático - e de interesse da empresa. É por causa da segunda metade da frase que muitos chefes são incompreendidos.

SER BOM SEM SER BONZINHO
A diferença é muito maior do que o uso do diminutivo parece pressupor. Ser bom vai impulsionar uma carreira. Ser bonzinho vai retardá-la. O bonzinho é aquele funcionário que os colegas adoram, que o chefe aprecia e que todo mundo na empresa elogia. Só que o bonzinho passa anos e anos fazendo a mesma coisa. E isso acontece porque ele não reclama de nada, não pede oportunidades, não contraria ninguém - nem mesmo quando sabe que tem razão. Pessoas assim são tão raras que os chefes não admitem se desfazer delas. E o bonzinho vai ficando onde está. Paradoxalmente, sua maior virtude é também o maior entrave para sua carreira. O bonzinho não precisa aprender a ser bom, porque ele já é. Ele precisa, apenas, deixar de ser bonzinho.

APROVEITAR AS MUDANÇAS
Empresas mudam. Por incontáveis motivos. Mudam por estratégia, por tecnologia, por pressão da concorrência, por necessidade de atualização ou por associação com outras empresas. Se existe uma única certeza, em qualquer empresa, de qualquer setor, é que daqui a cinco anos as coisas serão diferentes. Mas essa realidade nunca impediu que a palavra "mudança" causasse calafrios. Porque ninguém vai perguntar: "Qual será o efeito benéfico da mudança para a empresa?". Qualquer ser humano normal perguntará: "O que vai acontecer comigo?". No fundo, todos nós somos a favor de qualquer mudança que podemos controlar. Nas empresas, praticamente todas as mudanças estão fora do controle dos funcionários. Logo, em princípio, somos contra. Aí, existem duas alternativas: ficar ou sair. Para os que ficam, há três opções: criticar, esperar para ver o que dá ou embarcar. De modo geral, pode-se dizer que a maioria prefere ficar. E que a atitude da maioria dos que ficam é de revolta ou de conformismo. Os poucos que embarcam são sempre os primeiros a ser beneficiados pela mudança, se ela der certo. E, se não der, os que embarcaram ganharão a confiança da empresa. Para uma carreira, duas coisas são positivas: mudar com a empresa ou mudar de empresa. E uma é negativa: ignorar mudanças.

SER POLÍTICO
A palavra "político" anda meio desgastada. Por isso, nas empresas, tem quem se ofenda quando é chamado de político. Mas isso continua sendo um elogio. Saber ser político é vital para a carreira. O funcionário político pratica aquilo que a Política tem de melhor: ele costura alianças, se relaciona bem em todas as direções do organograma, sabe a hora de falar e a hora de engolir um sapo e faz um favor porque sabe que um dia precisará de um. O primeiro passo para aprender a ser político em uma empresa é o elogio. Basta escolher um colega não muito apreciado. O casca de ferida. E procurar, entre as tantas coisas ruins que o casca tenha feito, algo que ele tenha feito de bom. E elogiar o casca pelo trabalho bem-feito. Qualquer pessoa que conseguir dar esse passo, que às vezes pode até embrulhar o estômago, começa a trilhar a estrada da política. Para quem não gosta do método, uma informação: todos os presidentes de empresa são grandes políticos. E não se tornaram políticos depois de chegar à presidência. Foi o contrário.

CONSTRUIR UMA IMAGEM
Esse é o Marketing Pessoal. É mais fácil entender a importância dele se pensarmos que o profissional é um produto que está disponível no mercado de trabalho. Como qualquer produto, tem um certo conteúdo e um certo valor. A questão é: como aumentar esse valor? Fazendo o que as empresas fazem com seus produtos: marketing. Caprichar no visual e exaltar os pontos bons (porque os pontos ruins serão ressaltados pela concorrência). Além disso, há outro fator que influencia nossa percepção de um produto: a freqüência com que o vemos em comerciais. Os mais vistos são os mais lembrados. O Marketing Pessoal é a propaganda que cada profissional faz de si mesmo, sem exagerar na dose (para não se tornar ridículo) nem na freqüência (para não se tornar maçante). No mercado de consumo, um bom produto é aquele que parece valer mais do que custa e oferecer mais do que promete. Isso - e mais a divulgação disso - faz com ele mereça a fidelidade do consumidor. Como se sabe, nenhuma empresa faz a propaganda da outra. Nas empresas, também não adianta ficar esperando que os outros notem o que estamos fazendo e passem a divulgar nossas qualidades. Nossos colegas estão mais preocupados com o marketing deles que com o nosso. Por isso, um profissional nunca deve perder uma oportunidade de aparecer. Mas, para aparecer, antes é preciso realizar. Senão, é propaganda enganosa.

NEUTRALIZAR GENTE RUIM
Nas escolas, há uma resposta correta para cada questão. Para passar de ano, o aluno só compete consigo mesmo. Se ninguém gostar dele, mas ele tirar boas notas, o objetivo será atingido. Em empresas é diferente. Existem colegas invejosos, ou dissimulados, que não hesitarão em prejudicar alguém para se beneficiar. Isso é tão reprovável quanto inevitável. Eles são uma minoria, é verdade, mas podem causar estragos grandes. Identificar essas pessoas é essencial, e tentar ignorá-las é ingenuidade. Elas devem ser combatidas. Numa conversa séria, cara a cara, sem levantar a voz e sem fazer ameaças, apenas mostrando personalidade e exigindo respeito. Conversas assim sempre trazem resultados concretos, porque a outra característica dos falsos é a covardia. Quando confrontados, eles murcham e vão procurar outra vítima.

NÃO LEVANTAR BARREIRAS
Frases constantemente repetidas - "Eu não consigo aprender inglês", ou "Tenho pavor de falar em público", ou "Não me explique porque eu não vou entender" - têm um efeito perverso. Com o tempo, as pessoas que as repetem acabam se convencendo de que são piores do que realmente são. A filosofia da auto-ajuda (mote básico: "Acredite em você, e você vencerá") vende uma imensidão de livros com base numa simples premissa: de modo geral, os brasileiros se depreciam, ao invés de se apreciar. É verdade que existem pessoas tão patologicamente introvertidas que não conseguem engatar duas frases ao fazer uma apresentação em uma reunião. Mas esses são casos clínicos e muito raros. Buscar conforto em frases negativas pode até atrair ocasionais simpatias. Mas, para a carreira, elas funcionam como freios. Quando uma delas vem à mente, basta lembrar que o acelerador é o pedal do lado. Todo profissional bem-sucedido tem sua história de superação pessoal para contar - que começou como uma simples frase: "Vou tentar", em vez de "Não vou conseguir".

ADAPTAR-SE AO AMBIENTE
Existem empresas que praticam a meritocracia selvagem. Sua característica é o berro. Os que conseguem resultados acima dos objetivos são regiamente premiados, os que não conseguem são sumariamente expelidos. Existem empresas que são conservadoras. Sua característica é o bocejo. Cada passo é cuidadosamente planejado, e as decisões só são tomadas depois de infindáveis reuniões. Existem empresas de dono, em que o humor do proprietário conduz a mudanças bruscas de direção. Sua característica é o pânico. Existem empresas em que tudo está previsto em normas escritas, do traje de trabalho até as dimensões do cartão de visita. Sua característica é o silêncio. E, evidentemente, existe a percepção de cada empregado - enquanto um acredita que está na melhor empresa do mundo, seu colega ao lado pensa exatamente o contrário. Os chamados "funcionários insatisfeitos" são aqueles que não conseguem se adaptar ao sistema adotado pela empresa. Eles tendem a ver a empresa como ela poderia ser, não como ela é. O resultado é sempre a desilusão, a falta de comprometimento e as críticas constantes. Só existem duas opções para casos assim. Ou o funcionário se enquadra ou pede a conta. Nenhuma carreira ganha velocidade quando trafega na contramão.

CAMINHAR PARA A PROMOÇÃO
A hierarquia é comumente representada como uma escada, na vertical. Mas, na verdade, ela é um misto entre uma escada e uma rampa. Os degraus são longos e ficam a uma razoável distância uns dos outros. Uma promoção acontece quando o empregado já percorreu todo o trajeto entre um degrau e outro e - principalmente - quando já demonstrou que reúne boa parte das aptidões requeridas para caminhar no degrau seguinte. Isso provoca muitas reclamações. Há situações em que, aparentemente, o empregado promovido era pior do que o colega preterido. A empresa era míope? Ou foi favorecimento? Na verdade, os colegas do enjeitado olharam para trás (o que ele já havia mostrado em seu degrau). A empresa, ao decidir, olhou para a frente (o que o promovido poderia mostrar no degrau seguinte). Para ser promovida, uma pessoa precisa saber quais são as qualificações exigidas para o cargo pretendido, tanto pessoais quanto técnicas. E se preparar.

LIDAR COM FRUSTRAÇÕES
O mercado de trabalho tem flores. Mas, na maioria das vezes, são pepinos e abacaxis. Todo profissional passa por períodos em que (a) ninguém parece notar que ele existe, ou (b) ele parece ser o culpado por tudo o que acontece em seu setor. Os elogios desaparecem, as críticas aumentam e os aumentos salariais viram miragem. Nesses momentos, é necessária uma boa dose de calma e paciência. Quanto mais alguém se concentrar nas coisas ruins, piores elas parecerão. É importante encontrar maneiras de se desligar (ler, estudar, dedicar-se a algum hobby). Porém, há um limite para tudo. Um período de dois anos sem promoções, sem aumentos nem nenhum vislumbre de uma nova oportunidade já é um alerta. E três anos é o ponto extremo. Se nada aconteceu nesse período, a probabilidade de que algo aconteça nos próximos três é remotíssima. É hora de mudar.

PREPARAR-SE PARA UMA DEMISSÃO
Ter três empregos diferentes em cinco anos já não é mais visto como um sinal de falta de direção profissional. De modo geral, a rotatividade aumentou muito. Há empresas em que o "tempo médio de casa" é de dez anos, mas raramente se encontra nelas alguém com dez anos de casa. Há um grupo com até três anos, que muda constantemente, e outro grupo estável, com mais de 15 anos. A estabilidade no emprego, embora ainda valorizada, deixou de ser um fator essencial em novas contratações. Esse é o lado bom. O lado ruim é que empresas também estão demitindo sem muita misericórdia. Nos últimos dois anos, algumas pesquisas revelaram que dois terços dos que foram dispensados (quase três quartos, no caso executivos de nível mais alto) foram surpreendidos pela demissão. Ficaram revoltados e não entenderam os motivos. Alguns se deprimiram. Outros tentaram imaginar maneiras criativas de se vingar da empresa. Por maior que tenha sido o choque, todas essas reações são desperdício de tempo. A decisão de demitir (assim como a decisão de pedir demissão) é unilateral. Como o juiz que não desmarca o pênalti, mesmo que o time punido se esgoele ao reclamar da injustiça da marcação, a empresa também não volta atrás. A demissão não deve ser vista como uma vergonha, ou como uma falha jurídica dos céus. Deve ser encarada naturalmente. No instante em que ela ocorre, o currículo já deve estar atualizado. E os contatos das pessoas que poderão fazer indicações também. Uma quantia em dinheiro, suficiente para seis meses de segurança financeira, já deve estar no banco - para evitar que o demitido aceite uma vaga inadequada, na base do desespero. Por outro lado, quem está preparado para uma demissão dificilmente é demitido.

ESCOLHER PARA NÃO ENCOLHER
O que é melhor: trabalhar em uma empresa grande ou em uma empresa de porte médio ou pequeno? A primeira hipótese oferece mais oportunidades de carreira, mas a segunda hipótese é mais viável estatisticamente. Atualmente, 80% das vagas da iniciativa privada estão nas empresas menores. Embora as grandes companhias apareçam mais na mídia, elas vêm diminuindo progressivamente o número de empregados. Parte das vagas passou a ser terceirizada, outra parte foi enxugada pelos programas de produtividade. As montadoras do ABC paulista são o perfeito exemplo dessa transformação. Hoje, em relação há 30 anos, elas montam o dobro de carros com um terço de gente. Evidentemente, grandes empresas são uma grife. Num processo para admitir oito estagiários em um banco famoso, aparecem 6 mil candidatos. Por isso, começar a carreira em uma empresa menor é uma idéia que faz sentido. Mesmo para quem já está empregado numa empresa grande, mudar para uma menor também tem vantagens - até financeiras. Mas há uma desvantagem: a volta para uma empresa de grande porte só será possível num nível hierárquico mais baixo.

Por Max Gehringer

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