Dia do Julgamento

"Cada dia é o dia do julgamento, e nós, com nossos atos e nossas palavras, com nosso silêncio e nossa voz, vamos escrevendo continuamente o livro da vida. A luz veio ao mundo e cada um de nós deve decidir se quer caminhar na luz do altruísmo construtivo ou nas trevas do egoísmo. Portanto, a mais urgente pergunta a ser feita nesta vida é: 'O que fiz hoje pelos outros?'"

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

EM ÉPOCA DE CRISE, BLINDE A SUA CARREIRA

Um executivo experiente me procurou certa vez dizendo estar preocupado com algumas mensagens que foram fixadas no quadro de avisos da empresa para todos os funcionários lerem. Ele me disse que não sabia o que fazer diante daquelas afirmações. Elas eram curtas e diretas:
  • Não podemos prometer que não seremos comprados por outra empresa nos próximos meses.
  • Não podemos prometer que haverá espaço para novas promoções no curto e no médio prazo.
  • Não podemos prometer que seu cargo existirá até a idade de sua aposentadoria.
  • Não podemos esperar a sua lealdade continua – e não estamos certos de desejá-la.
  • Não podemos mais planejar a sua carreira e o seu autodesenvolvimento.
Vamos analisar cada uma delas com calma para que não interpretemos o que foi escrito de forma errada ou tomemos decisões precipitadas.
1- Não podemos prometer por quanto tempo estaremos operando.
Sim, não há segurança absoluta em nenhum ambiente empresarial nos dias atuais. Nunca houve e também nunca haverá. Tudo muda o tempo todo. A vida é movimento, como disse Aristóteles, filosofo grego. A concorrência se tornou brutal e somos surpreendidos todos os dias com o surgimento de novas tecnologias, produtos e serviços. Não há saída fácil. Ou enfrentamos esses dragões com inteligência, rapidez e coragem, ou fatalmente desapareceremos. Durante os últimos anos vimos grandes, médias e pequenas empresas desaparecerem, entre elas nomes como Rohm & Haas, Ciba Especializadas e EDS – Electronics Data Systems. Além disso, os custos operacionais se elevaram rapidamente. Contribuíram para isso a excessiva carga tributária hoje vigente no país, a falta de infraestrutura – estradas, aeroportos e portos –, a corrupção generalizada nos diferentes órgãos públicos, a improdutividade, a mediocridade, a obsolescência tecnológica, e a falta de uma força de trabalho preparada, competente e comprometida. Como consequência dessas e de tantas outras mazelas nacionais, nossos produtos estão perdendo a sua competitividade para os países asiáticos. Quero lembrá-lo de que essa realidade deixa empresários e uma significativa parcela de nossos executivos com insônia todas as noites. Portanto, não é de admirar que tantos profissionais adoeçam em suas organizações.  
2- Não podemos prometer que não seremos comprados por outra empresa nos próximos meses.
Essa é uma possibilidade a qual toda empresa está sujeita num mundo globalizado. E não há nada que os funcionários possam fazem para impedir esse destino quando ele é decidido. O importante nessas horas é saber qual comportamento adotar diante de tal realidade. Não se desespere e nem entre em pânico. Observe tudo o que acontece ao seu redor. Mantenha-se antenado o tempo todo. Seja proativo e apoie integralmente o grupo que adquiriu sua empresa. Não esconda informações. Não faça comparações entre os antigos proprietários e os atuais. Faça o seu trabalho com a mesma dedicação. Seja visto pela empresa compradora como um profissional valioso e indispensável. Mostre serviço todos os dias e evite as fofocas.
3- Não podemos prometer que haverá espaço para novas promoções no curto e no médio prazo.
A tendência atual das organizações é eliminar níveis hierárquicos. Esse processo de enxugamento para tornar as empresas mais flat teve início na década de oitenta e, desde então, só ganhou força. Com isso, as promoções se tornaram ainda mais raras. A verdade é que não há nada de novo nessa afirmação. A empresa apenas teve a coragem de ser transparente e honesta. Segundo Peter Drucker, renomado escritor, ecologista social e consultor empresarial norte-americano, “95% da média gerência desaparecerá nos próximos anos.”O fim do emprego tal como conhecemos já foi objeto de estudo de vários escritores. Entre as obras que merecem ser consultadas estão “The End of Work”, de Jeremy Rifkin, “JobShift: How to Prosper in a Workplace Without Jobs, de William Bridges, e “The End of Work as You Know It”, de Milo Sindell.
4- Não podemos prometer que o seu cargo existirá até a sua idade de se aposentar.
Onde está a novidade nessa declaração?  Como você sabe, nesses instantes, coisas desagradáveis acontecem aos mais leais funcionários. Ninguém deve se assustar ou ficar impressionado com previsões desse tipo. O jovem que atualmente ingressa no mercado de trabalho deve estar preparado para mudar até seis vezes de carreira ao longo de sua vida. E todos esses movimentos enriquecem a vida e carreira, pois são essas transformações que proporcionam um mundo melhor a cada instante. Portanto, viva o dia de hoje.
5- Não podemos esperar a sua lealdade contínua – e não estamos certos de desejá-la
A mensagem da empresa está correta. Hoje, as pessoas são contratadas para executar projetos bem específicos. Além disso, aquelas atividades que não fazem parte de seu core business estão sendo terceirizadas ou eliminadas completamente. Portanto, concluídos os projetos, essas pessoas se tornam plenamente dispensáveis. Quando você deixa de apresentar novidades todos os dias e de agregar valor à empresa, o seu fim está decretado. Cristo, no Sermão da Montanha, há mais de dois mil anos atrás, instruía o seguinte aos seus discípulos: “Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se ao fogo”.
6- Não podemos mais planejar e gerenciar a sua carreira e o seu autodesenvolvimento.
Essa é mais uma verdade absoluta, pois são tarefas que devem ser planejadas e gerenciadas pelo próprio profissional – e não pela empresa. Não podemos deixar o destino de nossas carreiras à mercê da boa-vontade do chefe direto, da área de recursos humanos ou de qualquer outra pessoa ou área. Precisamos assumir as rédeas da situação, definirmos o caminho que queremos seguir, os cursos que desejamos fazer, as empresas nas quais sonhamos trabalhar e os cargos que tentaremos ocupar.
Uma pessoa inexperiente pode se assustar diante de frases dão diretas e – por que não dizer? – duras. Mas elas são verdadeiras, e se interpretadas com calma e inteligência, podem se tornar importantes para o crescimento profissional. Independentemente de todas as transformações pelas quais passaram ou terão de passar as organizações no futuro, ainda assim sempre haverá espaços e oportunidades em abundância para profissionais com qualidades importantes como caráter ilibado, coragem para encarar os problemas à medida que eles surgem e encontrar soluções eficazes, comprometimento com a excelência na execução de seu trabalho, comunicação clara e objetiva, flexibilidade, tolerância à ambiguidade e, acima de tudo, incorporação dos valores da organização no dia a dia de trabalho. É isso que torna uma carreira à prova de fogo.
Mesmo que você perca o seu emprego, não se angustie ou se desespere. Milhares de profissionais já passaram por essa situação e cresceram profissionalmente com ela. O segredo é transformar esse momento delicado numa oportunidade de aprendizado e de reflexão sobre o seu futuro profissional. Quero lembrá-lo das palavras de Orison Swett Marden em “Success under Difficulties, “Os grandes homens nunca esperam pelas oportunidades, eles as criam”. Também nunca esperam por facilidades ou circunstâncias favoráveis, eles usam o que estiver à mão, resolvem seus problemas e dominam a situação. Um jovem determinado e com vontade vai encontrar ou criar uma solução. Um Franklin não precisa de aparelhos complicados, ele pode trazer eletricidade das nuvens com uma pipa de brinquedo. Os grandes homens nunca encontraram um atalho para seu triunfo. Sempre caminharam pela velha estrada, a do esforço e perseverança.”
William Shakespeare, dramaturgo e poeta inglês, expressou opinião semelhante, quando escreveu os seguintes versos:
“Existem marés no caminho dos homens
Que, aproveitadas na preamar, levam à fortuna;
Desprezadas, toda a viagem de suas vidas
Estará fadada ao trivial e às desgraças.”
Não há regras que, se obedecidas, possam dar 100% de garantia de segurança no trabalho. E nem caminho que conduza a um porto totalmente sem atribulações. Além disso, ninguém fará o seu caminho por você. Nenhum ser humano é capaz de viver a vida de outra pessoa. Portanto, siga o seu coração e o que ele diz. Quanto mais rápido você realizar suas descobertas, melhor para você.
Tenha especial cuidado com aquelas pessoas que agem como se tivessem respostas objetivas para todas as questões relativas à sua carreira. É curioso como elas sabem resolver o problema de todos que estão à sua volta. Opinam com aparente conhecimento de causa – e até o consideram um tolo por não enxergar coisas tão óbvias. Mas basta olhá-las com atenção para perceber que elas estão patinando em suas carreiras e não conseguem sair do lugar. Como, portanto, podem aconselhá-lo?
Infelizmente, muitos profissionais desejam empreender uma carreira de sucesso utilizando as mesmas armas do século XX. É pura perda de tempo. Eles não irão a lugar algum se continuarem insistindo com as mesmas ideias, atitudes e comportamentos. Esse processo é muito dinâmico, daí a necessidade de estarmos sempre estudando, lendo jornais e revistas especializadas e conversando com profissionais que admiramos. Ter um volume grande de informações é importante para nos ajudar a tomar decisões estratégicas.
Nunca renuncie aos seus estudos. Mantenha os livros abertos sobre a sua mesa de trabalho. Se não puder investir na aquisição de novas obras, vá a uma biblioteca pública ou mesmo a uma boa livraria e leia por lá mesmo tudo o que puder. A leitura o tornará um homem mais sábio e admirável, como aconteceu com David Livingstone (1813-1873), médico e missionário escocês que ao completar dez anos de idade, foi colocado para trabalhar numa fábrica de algodão em Glasgow, na Escócia. No final de seu primeiro mês de trabalho, ele recebeu seu parco salário e foi à uma livraria adquirir uma gramática de latim. Passou a estudá-la compulsivamente em sua escola noturna. Quando retornava à noite da escola para casa, continuava a estudá-la apaixonadamente até sua mãe o obrigá-lo a se deitar para dormir. Em pouco tempo Livingstone já dominava obras de autores como Horácio e Virgilio, e demonstrava bons conhecimentos de botânica, medicina e teologia, entre outros saberes.
Após a conclusão formal de seus estudos, ele decidiu se tornar um missionário médico na África, atendendo apelo da Igreja Presbiteriana. Seu trabalho contribuiu para a sua emancipação e colonização da África. Ainda hoje, o seu exemplo é elogiado nos grandes centros teológicos – seminários de teologia, colégios bíblicos, igrejas protestantes do mundo inteiro e nos livros de história da Igreja.
Outro bom exemplo é a história de Thomas Mellon, 1813-1908, que imigrou com sua família para Poverty Point, Westmoreland County, Pennsylvania, Estados Unidos. Ele tinha cinco anos e logo teve de trabalhar na pequena propriedade de seus pais. Em livro escrito para sua família, Thomas Mellon and His Times, ele diz que quando arava a terra, mantinha sempre sobre a sua cabeça um livro precioso – a autobiografia de Benjamin Franklin. E sempre que parava para descansar de seu árduo trabalho em campo inóspito, estudava o livro com verdadeira paixão.
“Eu nunca havia imaginado um projeto de vida melhor que o de ser fazendeiro, mas depois de ler sobre a vida de Franklin comecei a me questionar. Como um menino tão pobre e sem amigos pudesse ter se tornado um comerciante ou um profissional era para mim algo impossível, mas aqui estava Franklin, mais pobre do que eu, o qual por seu esforço, parcimônia e frugalidade, tinha se tornado culto e sábio, chegando ao alto da saúde e da fama. As máximas do pobre Richard transmitiam exatamente os meus sentimentos. Eu li o livro várias vezes, e imaginava se eu poderia fazer algo semelhante com os meios semelhantes. Eu possuia energia e vontade para o desafio, e poderia exercer o mesmo esforço e perseverança, e não me sentia em desvantagem, talvez com exceção do talento.”
O estudo minucioso desse livro mudou sua vida pessoal e o seu nível de influência na sociedade norte-americana. Thomas Mellon se tornou uma das maiores fortunas da América no final do século XIX e começo do século XX. Nenhum indivíduo que viaje ao berço da industrialização dos Estados Unidos, a cidade de Pittsburg, Estado da Pennsylvania, deixará de constatar a força de seu caráter e influência. Algumas de suas realizações mais importantes são a criação e desenvolvimento do Mellon Bank, a instalação da indústria Carborundum, a criação da Universidade Carnegie & Mellon, a aquisição da empresa de transporte ferroviário Ligonier Valley Railroad, e a exploração de petróleo e de minas de ferro.  
Os jovens que abandonam os estudos costumam justificar essa atitude com velhas desculpas: pobreza, necessidade de trabalhar, professores mal preparados, instalações físicas decadentes, violência e bullying na escola, entre tantas outras. Mas o fato é que nenhuma delas se sustenta. Todo jovem pode se instruir desde que movido por uma força interior – o desejo de aprender e de superar sua pobreza. Eu fui um menino pobre e reconheço que jamais teria conquistado o que conquistei se não fosse a minha paixão incomensurável pelos livros. Os livros têm um poder libertário indescritíveis. Se um dia você se deparar com um executivo sábio e prudente, logo descobrirá que ele é um amante de livros.
Confesso que me sinto decepcionado quando pergunto a um executivo ou uma executiva qual foi o último livro que leu e recebo como resposta algo como “eu não cultivo a hábito da leitura” ou “eu não tenho tempo para ler.” No meu íntimo, sei que essa pessoa apresenta deficiências técnicas e culturais que dificultarão muito a sua recolocação, e que recuperar esse terreno perdido não será fácil.
Nada no presente século substitui o valor da informação, do conhecimento e da sabedoria. Como escrevi no livro O Principio da Sabedoria – Lições de Salomão para o Bem-Viver, “Bem-aventurado o homem que acha sabedoria, e o homem que adquire conhecimento. Porque melhor é a sua mercadoria do que a mercadoria de prata, e a sua renda do que o ouro mais fino. Mais preciosa é do que os rubins; e tudo o que podes desejar não se pode comparar a ela. Aumento dos dias há na sua mão direita: na sua esquerda riquezas e honra. Os seus caminhos são caminhos de delicias, e todas as suas veredas, paz. É árvore de vida para os que a seguram, e bem-aventurados são todos os que a retêm.”

Nenhum comentário: